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Agricultura Orgânica em expansão no Rio Grande do Sul

 

Além de preservar o meio ambiente, a feira ecológica ajuda o produtor a ganhar mais pelo que produz e a economizar o dinheiro que seria usado em pesticidas e fertilizantes.     A produção de alimentos orgânicos, livres de agroquímicos, está em franca expansão no Rio Grande do Sul. A cada dia, mais agricultores se engajam na luta por uma produção "limpa" no Estado que foi precursor na luta pela regulamentação do uso de agrotóxicos, na década de 80. A Fundação Gaia e a Cooperativa Coolméia acreditam que, no Rio Grande do Sul, 5% dos produtores já praticam a agricultura orgânica. E que este número vai dobrar na virada do século, ou seja, nos próximos dois anos. Calcula-se que um quarto dos agricultores assentados já estão utilizando técnicas de agricultura orgânica, e a Emater registra 2.462 produtores que se dedicam a alguma forma de agricultura alternativa. Sem contar os que não usam insumos artificiais apenas por motivos econômicos. Mas praticar a agricultura natural não é apenas uma questão de opção, é também uma questão de mercado: os consumidores estão cada vez mais exigentes e dão preferência a alimentos mais saborosos e saudáveis.

Feiras ecológicas - Em Porto Alegre, por exemplo, há quatro feiras ecológicas em diferentes pontos da cidade. Aos sábados pela manhã, funcionam as feiras do bairro Bonfim (na Avenida José Bonifácio), do bairro Menino Deus (no Parque de Exposições), e a da avenida Princesa Isabel, e às terças-feiras e dias 13 de cada mês, a feira da Igreja Santo Antônio, no bairro Partenon. "Porto Alegre tem a maior feira de produtos orgânicos que eu já vi", declara impressionado o alemão Hardy Vogtmann, fundador e presidente da Federação Internacional dos Movimentos em Agricultura Orgânica (IFOAM), representada em mais de 100 países, referindo-se ao evento que quase pára a avenida José Bonifácio aos sábados pela manhã. "Na Europa existe um comércio similar, mas com uma mistura de produtos convencionais e orgânicos", informa Vogtmann. Ele é um dos principais difusores da agricultura orgânica no mundo e um dos autores do livro "Agricultura Ecológica" (Ed. Mercado Aberto). Vogtmann esteve no Brasil 12 anos atrás, trazendo contribuições da experiência alemã com agricultura livre de agroquímicos às discussões que sacudiam o Rio Grande do Sul em torno da lei dos agrotóxicos. Passado esse tempo, voltou para conferir os frutos do movimento, como a criação de hortas em escolas e a organização de pequenas propriedades rurais. Saiu contente com o que viu. "Este é o futuro para as pessoas, não para as companhias". Porque preserva o meio ambiente, é uma das soluções para problemas sociais: o produtor ganha mais pelo que produz e também porque economiza ao não comprar pesticidas e fertilizantes.

Coolméia, a pioneira - O número de adeptos a estes princípios vem crescendo constantemente desde que, há 21 anos, fundou-se a cooperativa pioneira, a Coolméia, com o propósito de produzir e vender alimentos para um seleto grupo de consumidores vegetarianos preocupados com a Era de Aquário. Quase todos eram membros da Grande Fraternidade Universal (GFU). A cooperativa começou com 40 sócios, hoje tem mais de 800. "Em 1978, contávamos apenas com um agricultor que não usava agrotóxicos, o Pedro Verde", lembra a agrônoma Glaci Campos Alves, coordenadora da área de Ecotecnologia da Coolméia. O que germinou em uma garagem na rua Barros Cassal, foi crescendo aos poucos, ocupando espaços cada vez maiores. Hoje, a Coolméia aluga prédios nobres da cidade: a sobreloja da igreja Santa Terezinha no bairro Bonfim e uma casa onde funcionam a contabilidade e a administração, na rua Vieira de Castro. Dispõe de restaurante, lanchonete, um mercado com cerca de cinco mil itens e duas feiras. Segundo Glaci, a receita bruta da Coolméia é de R$ 150 mil por mês e somente a feira dos sábados gera cerca de R$ 60 mil por mês. As "sobras do balanço", como é chamado o lucro bruto, são repartidas entre os "sócios-servidores". A entidade atua em parceria com outras organizações não-governamentais, formando uma rede de "geração de credibilidade": os produtos oferecidos na cooperativa são produzidos por agricultores que trabalham com assistência técnica dessas ONGs. Entre elas estão o Centro de Agricultura Ecológica Ipê, a Fundação Gaia, a Associação dos Agricultores Ecologistas de Torres, o Centro de Tecnologias Alternativas para Pequenos Produtores de Passo Fundo.

Igrejas também - Na luta pela salvação da Terra, também se engajam entidades e pessoas que normalmente se preocupam com o Céu: as igrejas desenvolvem programas similares para difundir a agricultura orgânica. Jair Luiz Gusberti, de Nova Prata, diz que há 10 anos, usava "venenos" para quase tudo. Hoje, aos poucos está trocando os químicos por outras alternativas na sua área de 15 hectares. Ele integra um grupo de oito agricultores interessados numa agricultura com resultados mais saudáveis para eles e para o ambiente, influenciados pela Pastoral Rural da Diocese de Caxias do Sul. A Pastoral da Terra é ligada à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mas é formada por uma comissão representativa de outras igrejas, como a anglicana e a luterana. Durante as pregações, muitos religiosos abordam a importância da ligação mística entre Deus, a natureza e a saúde do agricultor. Este trabalho está sendo realizado em 13 das 16 dioceses gaúchas, e já se formaram várias associações de agricultores ecológicos católicos. Irmã Teresa Squiavenato, secretária executiva da Pastoral da Terra, diz que a idéia é fomentar a qualidade de vida na comunidade rural. Ela estima que pelo menos uma dezena de feiras ecológicas já foram criadas com o incentivo da igreja católica no Estado. "O objetivo é valorizar a agricultura familiar sustentável em pequenas propriedades, e as feiras ajudam a conscientizar as pessoas que moram na cidade."

Os sem-terra - A Pastoral também atua em assentamentos e acampamentos de sem-terra. "Muitos vêm da monocultura e depois vêem que a terra é pouca para este tipo de produção", acrescenta irmã Teresa. De forma parecida age o Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana. O secretário executivo do Serviço de Projetos de Desenvolvimento da IECLB, Carlos Bock, calcula que mais de dez mil agricultores estejam integrados no programa, que mantém três núcleos em diferentes regiões do Estado: Erechim, São Lourenço e Santa Cruz do Sul. Cada região tem suas peculiaridades, mas em todas elas há casos de intoxicação provocadas por agroquímicos. O agrônomo coordenador do centro de apoio de São Lourenço e Santa Cruz do Sul, Ellemar Wojahn, diz que o projeto prega uma relação mais harmônica entre os produtores e o meio ambiente e que é possível conciliar preservação com agricultura. Boa parte dos recursos para este tipo de projeto vem de doações de países europeus, principalmente Alemanha.

Entre os assentados - Preocupados em ter uma assistência técnica diferente daquela oferecida pelo governo, os agricultores assentados estruturaram a Lumiar. Ela dá consultorias somente para os ex-sem- terra, em parceria com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Conforme Edson Cadore, um dos agrônomos da Lumiar, o objetivo é substituir o trabalho da Emater, que segundo ele, está mais empenhada em propagar a agricultura convencional, que usa agroquímicos, do que em utilizar técnicas alternativas. Cadore diz que a Lumiar procura basear seu trabalho em três linhas: agricultura ecológica, resgate da cultura do agricultor e democratização da assistência técnica: "A diferença é a concepção da agricultura". Hoje a metade dos assentamentos já tem o auxílio da Lumiar e a Cooperativa Central dos Assentamentos do Rio Grande do Sul (Coceargs) pretende que todos os assentamentos tenham alguma produção agroecológica.

As cooperativas - "Algumas regionais estão mais avançadas que outras", acrescenta Cadore. Ele cita alguns exemplos, produtos da reforma agrária, e sementes crioulas produzidas pela Cooperativa Regional dos Agricultores Assentados (Cooperal) de Hulha Negra. E anuncia que a Cooperativa Regional dos Assentados de Porto Alegre (Coopap), que abrange 22 municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre, está em negociações para realizar uma feira em Esteio e mais duas em Porto Alegre, uma na zona Norte e outra na zona Sul. "Através da Coolméia, este ano, pela primeira vez, foi mandado um caminhão de cenoura e beterraba do assentamento de Eldorado do Sul para São Paulo." Muitos dos "agora com-terra" também estão sentindo que os produtos ecológicos abrem possibilidades para melhorar de vida. Nelson José Martin, um dos 73 integrantes do assentamento de Eldorado do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre, chega a movimentar R$ 400,00 em apenas uma manhã de sábado na feira da Coolméia. "Dá mais ou menos R$ 1.200,00 por mês". Desse total ele pode tirar mensalmente cerca de dois salários mínimos. O restante vai para a alimentação dos animais e para a manutenção da Cooperativa de Produção Agrícola de Eldorado do Sul (Coopael). A cooperativa, formada por 18 famílias, é uma das precursoras da agricultura orgânica dentro do MST. Já adquiriu um trator e um caminhão, e está construindo um prédio para a classificação e embalagem de ovos. Martin planta 18 qualidades de verdura e vende toda a produção na Capital. Mas nem todos estão tão satisfeitos quanto ele. Ildemar Witz, que saiu da Coopael para fundar, com alguns familiares, o grupo Três Irmãos, queixa-se de que é difícil vender em Eldorado do Sul porque a população não distingue entre o alimento com ou sem veneno. Mesmo assim, ele espera que aumentem seus dividendos. Hoje Ildemar ganha cerca de R$ 40,00 na feira da Reforma Agrária, montada todos os sábados na avenida Princesa Isabel. "Quando eu estava em Crissiumal, dizia que horta era coisa de mulher", relata, Naquela época, usava veneno nas plantações de milho e soja. Hoje sua mulher, Inês Kohls, é responsável pela produção de mudas de flor. O casal acredita que dessa forma vai melhorar o orçamento, pois na feira há procura por flores mas ainda não há oferta.

Procedimentos alternativos - O assentamento também produz sementes crioulas. Claudir Kuffel, do grupo Pôr-do-sol, outro dissidente da Coopael, garante que a semente de alface que produz germina 100%. Além do mais, as mudas de alface não crescem em sementeiras: elas se desenvolvem em copos plásticos de cafezinho, que são reutilizados de cinco a oito vezes. Outro procedimento alternativo adotado no assentamento é o cultivo de aguapé em açudes e banhados. Essa planta aquática serve de alimento para os animais e também pode ser colocada na horta para proteger e adubar o solo. "Nem sabia que isso prestava", admira-se Mauro Cibulski, assentado que passou por mais de sete acampamentos até conseguir um pedaço de terra para plantar. O aproveitamento do aguapé é apenas uma das técnicas inovadoras divulgadas pela Fundação Gaia, criada em 1987 pelo ecologista José Lutzenberger. Além de apoiar esse grupo do assentamento de Eldorado do Sul, a Fundação dá assistência para mais 700 famílias de diversos municípios gaúchos. Nesse trabalho, conta com núcleos de irradiação em Novo Hamburgo, Montenegro, Viamão, Pantano Grande, Santa Maria e Charqueadas.

Um promotor agroecológico - O coordenador técnico da Fundação Gaia, Luis Fernando Wolff, salienta que a filosofia de trabalho da entidade é fazer do agricultor um promotor agroecológico, de maneira a tornar a comunidade mais autônoma e auto-suficiente. Ele diz que, em 1995, foi dado um importante passo em favor de programas de tecnologias para um desenvolvimento rural sustentável: a assinatura de uma agenda de compromisso por entidades importantes como Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Emater, Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária e Prefeitura Municipal de Porto Alegre. De lá para cá, muita coisa aconteceu. A valorização dos alimentos orgânicos vem aumentando. A soja orgânica, por exemplo, é muito procurada no mercado externo, tem cotação 100% maior que a do grão cultivado com agrotóxicos. E a Fundação Gaia - cujo trabalho de extensão é mantido principalmente pela Fundação Heinrich Böll, da Alemanha - procura mostrar aos pequenos agricultores as potencialidades deste mercado. E, para desenvolver uma "agricultura regenerativa", propõe a melhora da vida do solo, usando bactérias, fungos e minhocas para transformar a matéria orgânica em nutrientes para as plantas.

Agricultura regenerativa - De acordo com Wolff, este é o combustível adequado para o equilíbrio das plantas. "Praticar agricultura regenerativa é muito mais do que eliminar o uso de agrotóxicos, é um conjunto de práticas de manejo: adubação verde (cultivo de plantas recuperadoras do solo), adubação mineral (uso de pó de rocha), adubação orgânica (esterco, cobertura morta), evitar fertilizantes químicos, usar defensivos naturais (esterco líquido fermentado, caldas, soro de leite), consorciação e rotação de culturas (uso de plantas de diferentes famílias), reciclagem de resíduos (uso de restos de engenho, serrarias, matadouros) e observação da natureza com o aprendizado permanente de suas lições." O uso dessas técnicas torna o solo saudável e evita que a planta adoeça, ao contrário da agricultura química, que cada vez exige mais insumos. Que a própria natureza tem as respostas, os primeiros habitantes do Brasil já sabiam. O agrônomo Jacques Saldanha lembra que a produção sem o uso de agroquímicos sempre existiu. Os povos da floresta compreendiam a agricultura integrada com os outros elementos naturais. Ele cita várias culturas - milho, feijão, mandioca (entre outras raízes) - que sempre foram produzidas em harmonia com o ambiente. "Os indígenas mantinham um diálogo com a natureza, compreendiam seu funcionamento", explica Saldanha. "Tanto que abandonavam as áreas depois de exploradas para dar tempo para terra se regenerar."

Contra o capitalismo globalizado - Já o engenheiro agrônomo Sebastião Pinheiro, árduo combatente contra os agrotóxicos, com 10 livros publicados sobre o assunto, diz que o importante não é apenas produzir sem veneno. "É fundamental não entrar na lógica do capitalismo globalizado, em que as grandes corporações e países ricos detêm matrizes tecnológicas. A nova ordem econômica mundial são produtos ecológicos. É isso que pode dar lucro." Segundo Pinheiro, a agricultura orgânica cresce 25% ao ano nos Estados Unidos e 19% ao ano na União Européia. "Se existe uma ordem da ONU para a sustentabilidade agrícola, esta sustentabilidade será dada pelas grandes corporações, certificações e imposição de leis contra os pequenos", adverte Sebastião Pinheiro. E ataca: "Aqui no Brasil, o governo é capaz de alegar, como argumento de política pública, que o alimento com agrotóxico é mais popular". Recentemente, a revista alemã Ecologia e Agricultura (nº 108) publicou artigos que expõem a situação da agroecologia na Europa e mostram que é indispensável ter estruturas mistas com agricultura e silvicultura na era do desenvolvimento sustentável. Isso indica que a agricultura orgânica pode alcançar até 20% da área agrícola da Europa em 2010. Além disso, pesquisa da Faculdade de Nürting, Alemanha, entre mil agricultores ecológicos, concluiu que a agricultura orgânica pode produzir até 60% mais postos de trabalho do que a convencional. Tudo indica que a agricultura orgânica tem mesmo muito espaço para ocupar, em debates e em propriedades. Assim, se o Rio Grande do Sul continuar na vanguarda ambiental, a agricultura orgânica será praticada não só nas terras dos que estão preocupados com um mundo melhor, mas também nas terras daqueles que apenas não querem ficar de fora do mercado.

Sílvia Franz Marcuso é jornalista, membro do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul.


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