Construindo
a ecologia humana:
o papel do profissional de comunicação social no milênio
ANGELA SCHAUN
"A consciência e o sentimento de pertencermos à Terra e de nossa identidade terrena são vitais atualmente. A progressão e o enraizamento desta consciência de pertencer à nossa pátria terrena é que permitirão o desenvolvimento, por múltiplos canais e em diversas regiões do globo, de um sentimento de religação e intersolidariedade, imprescindível para civilizar as relações humanas."Edgar Morin, 1999
Num mundo onde a comunicação adquiriu forma total, capaz de representar e apresentar o certo e o errado, iluminando todas as cenas da vida, temos que estar atentos e promover uma avaliação mais responsável sobre o papel do profissional de comunicação social no próximo milênio, pois o seu poder tornou-se cada vez mais determinante e político. As sociedades contemporâneas são complexas, e as redes mediáticas constituem-se no novo espaço público privilegiado.Vivemos um momento de aceleração da vida em todas as instâncias a partir das transformações levadas a cabo pelas descobertas científicas e, sobretudo, pelo veloz processo de informatização e mediatização de todas as instâncias da vida humana, ligando tudo e todos.
"Fatos cruciais vêm ocorrendo nos últimos 50 anos, levando a uma consciência maior sobre os perigos de destruição do Planeta: a bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki, as explosões de usinas atômicas, os buracos na camada de ozônio, o derramamento de óleo nos oceanos, o desmatamento, a poluição do ar, a destruição dos leitos e encostas dos rios."Hoje vivemos na "sociedade em rede". Apesar da "rede", o mundo contemporâneo vive grandes e complexas exclusões, toda a riqueza gerada não propicia, em escala equivalente ou equilibrada, a mesma proporção de igualdade entre os povos, muito menos da ampliação eqüitativa do desenvolvimento sócio-econômico pelo planeta.
Para Muniz Sodré, as mudanças rápidas têm gerado o agravamento dos problemas e expandido de forma irracional os conflitos humanos. Ele afirma:
"A globalização tecnoeconômica do mundo - uma nova etapa qualitativa da planetarização, que aceita a fragmentação territorial mas nivela culturalmente as diferenças de povos e costumes em função da virtualidade do mercado - deixa intocada a questão do etnocentrismo ocidental, a questão essencial da heterogeneidade simbólica." (Muniz Sodré, 1999)O avatar de tão grandes e indigestas transformações, a chamada globalização, tem complexa e longínqua matriz. Não podemos nos esquecer que a história não começou com Vasco da Gama, nem com Cristóvão Colombo, muito menos com Pedro Álvares Cabral. Antes deles "rebatizarem" com a sua racionalidade cultural e econômica as formações ameríndias e afro-americanas, muitas civilizações surgiram, edificaram-se e atingiram seu apogeu, como os impérios egípcio, assírio, babilônico, persa, e o mais famoso deles, o império romano, que parecia infinito.
"O papel preponderante do profissional de comunicação no contexto das complexas redes de informação num mundo globalizado tende a aumentar sua responsabilidade política, levando-o a exercer a função não apenas informativa, mas também, e sobretudo, educativa."Todos foram irremediavelmente destruídos devido ao caráter intrinsecamente caótico da humanidade. A verdade é que o marco histórico de 1492 inicia duas espécies antagônicas e interligadas de globalização: a globalização iluminista, caracterizada pelas idéias de emancipação, internacionalização, e humanização, e a globalização político-econômica da colonização, dominação e da exploração. Além de estabelecer uma dicotomia, esses dois processos desenvolveram-se mediante a coexistência de opostos, ou seja o paradoxo, gerando conflitos. As guerras, embates e lutas aconteceram e as utopias foram buscadas a partir das idéias humanistas.
Alguns fatos marcantes, como o fim dos regimes socialistas e a eclosão de guerras étnicas na Europa e no golfo Pérsico, demonstram que os inúmeros conflitos mundiais têm raízes profundas internas e externas, e já não podem ser resolvidos com as revoluções sonhadas. Outro agravante foram as mudanças radicais no modelo do estado do bem-estar social como mediador dos conflitos entre capital e trabalho, gerando o desdobramento da geopolítica global, e a hipertrofia do neocapitalismo financeiro e transnacional, priorizando a distribuição do poder à mercê das trocas, do mercado, da relação de dominação norte-sul, da interdependência de mão única, dos blocos econômicos, da oligopolização das empresas transnacionais, pois a globalização, mais que integração, hoje vem produzindo fragmentação.
Novas formas de participação política e a mídia
A contraponto dessa lógica, criam-se organismos internacionais para as conversações de paz, como ONU e Unesco. Mais recentemente, vemos surgir a terceira via, um mecanismo novo de comunicação constituído por organizações sociais que representam e reivindicam sobretudo mais direitos humanos, mais cidadania e a preservação do meio ambiente, mediando e articulando ações que se irradiam e vão formando parte da opinião pública em nível mundial.
São porta-vozes das novas utopias sociais, espalhando-se nas ruas e criando fatos políticos novos, que a partir da mídia vão configurando a opinião pública, fazendo ver e rever os problemas planetários. As manifestações de Seattle e Tailândia contra as deliberações dos países hegemônicos na globalização são exemplos mais significativos e de grande repercussão. No Brasil os movimentos dos sem-terra (MST) e o dos sem-teto vêm produzindo ações mais enfáticas, contrariando os interesses das oligarquias de plantão.
"Ninguém educa ninguém.
Ninguém educa a si mesmo.
Os homens educam-se entre si, mediatizados pelo mundo."Paulo Freire
A mídia vem exercendo o seu papel de informar e produzir a ampla difusão desses fatos, influenciando para chamar a atenção dos graves problemas sociais e ambientais que emanam da sociedade civil. Assim, forma-se, em nível global, uma rede de organizações não-governamentais (ONGs), de intelectuais críticos e dos movimentos sociais, que vêm contribuindo para repensar a questão das utopias democráticas, prenunciando algo que todos nós podemos fazer, reconfigurando as formas tradicionais de fazer política.
Do ponto de vista do habitat humano, fatos cruciais vêm ocorrendo nos últimos 50 anos, levando a uma consciência maior sobre os perigos de destruição do Planeta, que vem sendo gravemente ameaçado. Apenas como lembrança: a bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki, que revelou todo o poder destruidor das máquinas de guerra, as explosões de usinas atômicas, como em Chernobyll, a descoberta dos buracos na camada de ozônio, os derramamentos de óleo nos oceanos, o desmatamento das florestas, a poluição do ar nas grandes cidades, a destruição dos leitos e encostas dos rios. Todos esses fatos contribuíram para o aparecimento de uma consciência crítica e política sobre a idéia de preservação do planeta Terra.
A grande novidade política é a ação ecológica, na qual torna-se fundamental o papel da comunicação e da educação na construção do desenvolvimento ecologicamente sustentável e socialmente justo. A questão do meio ambiente deve ser vista como uma oportunidade de desenvolvimento criativo do homem, numa nova dimensão que busca soluções dinâmicas na sua relação com a natureza.
O desenvolvimento sustentado diz respeito ao geossistema planetário da Terra, que deve ser respeitado na sua relação com a economia e a sobrevivência das populações, objetivando a criação de oportunidades de investimentos e negócios que permitam a melhoria da qualidade de vida e o aumento da renda das populações, visando ao bem-estar e à cidadania plena.
A questão do meio ambiente é global e emblemática, é a grande novidade da agenda contemporânea, e vem disputando espaço com a nova economia, a exclusão-inclusão social e a mundialização dos mercados. A mídia agora tem o desafio de informar sobre as questões ecológicas.
O profissional de comunicação e a consciência ecológica
O papel preponderante do profissional de comunicação no contexto das complexas redes de informação num mundo globalizado tende a aumentar a sua responsabilidade política, levando-o a exercer a função não apenas informativa, mas também, e sobretudo, educativa. A mídia é didática, ela dispõe de mecanismos de linguagem próprios que vêm traduzindo e pautando o cotidiano de todos, direta ou indiretamente.
Assim, a influência dos meios de comunicação tradicionais e dos sistemas multimeios e das redes telemáticas vêm aumentando a cada dia, numa demonstração inequívoca do seu papel político e histórico. O profissional que trabalha e atua no contexto da mídia tem a responsabilidade de traduzir e, por vezes, mediar o imbricado processo dos interesses econômicos hegemônicos com a vontade política expressa nas ações de cidadania. Sua missão é ainda mais desafiadora quando tende a difundir novos paradigmas, que passam a compor a sociedade contemporânea.
Dentre esses novos paradigmas, destaca-se a ecologia humana, que propõe centrar homem e natureza no mesmo patamar de complexidade e inter-relação, abrindo-se para uma visão de mundo ativa e retroativa, num jogo de interações e retroações, no qual os seres vivos são auto-organizadores, que se auto-produzem sem cessar, necessitam de energia e dependem do meio geológico e da cultura para manter sua automomia, portanto, são seres auto-ecoorganizadores. Há uma relação antagônica e complementar intrínseca no conceito, pois, a auto-ecoorganização viva se regenera, vida e morte são inseparáveis. A ação ecológica pauta-se na busca da responsabilidade social em todas as ações humanas, mas sempre preparada para o inesperado, a incerteza e a finitude.
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A consciência ecológica focada no trinômio homem-natureza-cosmo é a mais subversiva das consciências críticas. A base teórica da subversão ecológica e ambiental não tem dono, seu impacto não está à direita ou à esquerda, está adiante. Seu paradigma
funda-se num projeto ético ligando homens, nações e gerações baseados na solidariedade. Seu objetivo é fundar um novo padrão de relações internacionais voltados para o desenvolvimento sustentado e para a preservação da natureza.O novo trabalho de ação e informação do profissional de comunicação deve voltar-se para o entendimento da economia ambiental, novo patamar que já começa a se esboçar para os investimentos nacionais e transnacionais, prevendo o financiamento de projetos ecologicamente sustentáveis a longo prazo.
Outra perspectiva é dar voz para as organizações não-governamentais enquanto espaços de mediação em todos os níveis. E, sobretudo, contribuir para a ampliação da consciência ecológica e ambiental, ouvindo outros setores da sociedade, como os jovens e as crianças, saindo do sentimento de falta e agindo proativamente, criando agendas e pautas positivas.
Nesse contexto, é primordial o papel do profissional de comunicação, que, aliado àqueles que trabalham no âmbito da estrutura estratégica da educação, deverá formar e sensibilizar a opinião pública e as esferas de poder com vistas à discussão ampla dos temas relacionados à ecologia humana, informando a implantação de projetos, denunciando e alertando para os problemas, traduzindo as políticas públicas e apoiando ações efetivas, que visem a garantir, no presente, a possibilidade de um futuro para todos.
Angela Schaun, jornalista, doutoranda ECO/UFRJ, professora UVA, Unifacs e pesquisadora ad hoc do NCE/ECA/USP.